Crônicas da prisão: ideia, razões e costuras.
(à guisa de introdução)
A ideia destas “crônicas de prisão” surgiu a partir de minha atuação na Pastoral Carcerária da Igreja Católica. Durante os últimos 4 anos nosso pequeno grupo, (com o hiato causado pela pandemia de covid) alicerçado pelos princípios do Evangelho de Jesus Cristo, volta seu olhar para os privados de liberdade e os visita uma vez na semana. Nosso objetivo a priori é a escuta. O que eles têm a dizer? O que suas vidas têm a dizer? Como podemos estar presentes, a partir dessas falas?
Pois foi dessa escuta que nasceram as Crônicas.
Mas, por que escrever crônicas sobre um assunto de que muitas pessoas (boas cristãs, inclusive) passam ao largo ou abertamente se posicionam por deplorar? Parto do princípio de que o silenciamento pode significar aquiescência. O silenciamento pode nos colocar num menear de cabeça afirmativo, quando nossa vontade é gritar “não”. Além de, se de um lado, falar sobre prisão, assunto que a sociedade como um todo torna invisível e mudo, numa indiferença coletiva que é capaz de amordaçar qualquer fala, pode se tornar mesmo uma árdua tarefa, de outro, sabemos que levantarem-se questões acerca de uma chaga social, como os sistemas prisionais, ainda que sob o manto de um texto literário, pode colaborar para que a invisibilidade e o silenciamento se tornem mais do que manchetes sensacionalistas de programas de tv.
Assim, as Crônicas serão costuradas ao lançar de minha voz pessoal sobre a prisão e os que lá se encontram, a partir da observação e da escuta de que me avizinho a cada semana e que constroem em mim perguntas e, inexplicavelmente, até algumas respostas. Assumo individualmente a responsabilidade pelo que será dito a cada Crônica e, embora eu faça parte do grupo de agentes da Pastoral Carcerária, as Crônicas não serão, necessariamente, vozes da Pastoral.
Ah, as Crônicas não estarão por aqui com dia e hora marcados, porque na prisão não existe cadência temporal, o que pode parecer estranho numa estrutura aparentemente uniforme, e no inevitável “dia e noite”. É que lá o tempo congela porque congelam-se os movimentos (haverá tempo sem movimento?) e, muitas vezes, o que é mais triste, congela-se a esperança. Portanto, às vezes, minhas costuras se vão congelar. É inevitável.
Primeira Crônica (O corpo marcado)
Não era uma tarde das mais agradáveis. Fazia muito frio e caía uma chuvinha fina, comum por aqui em qualquer junho. É quando a paisagem e os prédios adquirem tons de cinza. Não era a primeira vez que lá estávamos. Demoramos para entrar, que tudo é demorado na prisão. Em tudo há pontos finais, as vírgulas foram esquecidas lá fora. Passados pelo escâner, pela segunda segurança, e eis-nos, enfim, sob o mesmo teto que nossos irmãos privados de liberdade - teto cinza, de fala cinza. Caminhamos pelo corredor num curto caminho cinza e, depois de passarmos por duas grades, esperamos a última porta se abrir, sugada por um segurança, lá em cima.
Por fim, já dentro de uma mistura de salão com pátio - parte com teto, parte sem teto, porém com grades em cima, e dos lados, como grandes gaiolas, encontramos aqueles que já nos esperavam. Quase todos os olhares se voltaram para nós, nesta chegada, e os cumprimentos, os apertos de mão, os parcos sorrisos nos receberam. Tratava-se de uma visita, tratava-se de um encontro. Caminho mais para o fundo, na parte coberta e sento no banco de metal gelado, que se estende ao longo de grandes mesas de igual material. A princípio tudo parece igualmente gelado; mas, de repente, atraio a atenção de um jovem, que se senta em frente, e entabulamos uma conversa. Observo seu rosto.
- A senhora pode falar com minha mãe e dizer que eu tô aqui. Ela não tá sabendo.
Os olhos me fitavam com uma mistura de possibilidade e a angústia de um não.
Pensei por um instante na gaiola. Para quem nunca entrou numa prisão é impossivel saber o que é a impossibilidade da locomoção livre. Dostoiévski teimava em aparecer: é preciso sair das gaiolas, ter coragem para o voo... mas como, meu Deus?, tudo está tão longe!
- Claro, posso sim. Sabe o telefone?
Pensei ver um sorriso tímido.
- Sei.
Ao contrário do que se imagina, a conversa é monossilábica e, de tão lenta, parece levar horas até que uma nova frase seja dita. E ele me diz o número, que anoto na agenda. Estou escrevendo, mas sinto seu olhar atento, certamente torcendo pra eu não errar o número, porque essa é a última chance pontifícia para uma comunicação quase pública, sem privacidade nenhuma... depois, só dali a uma semana, quando volto. Ele repete o número. Releio. Está certo. Que bom que temos memória!
- A senhora vai ligar, então? - insiste.
- Vou.
Neste momento olho definitivamente para ele: suas parcas roupas, camiseta, que um dia fora branca no corpo de outro, uma bermuda (meu Deus do céu, devia estar fazendo uns 15 graus!), uma coberta - de algodão prensado - sobre os ombros que, de noite, o cobre no sono talvez sem sonhos. E então, me lembro que estou agasalhada e não consigo parar de pensar em Michel Foucault, quando nos mostra que todo poder busca colocar sua marca no corpo ou, inversamente, o corpo é o receptáculo privilegiado da vontade de poder.
Mais alguns minutos e transpomos as grades, no sentido da saída. Vão comigo um número de telefone e uma vergonha humana espetacular pelo corpo marcado.

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